
SRA. NAIR DE ANDRADE MESQUITA

ÍCONE FASHION - NAIR DE ANDRADE MESQUITA
Data: 30 maio 2012 - Hora: 20:10 - Por: Erika Nesi
NAIR DE ANDRADE MESQUITA ícone em amor terno de esposa e mãe. Amante das flores, jasmineiros, roseiras, dálias, sorrisos de Maria que eram cultivadas com muito zelo e carinho no espaçoso jardim da velha casa dos seus pais, onde morava com a família. Hoje data de seu aniversário de nascimento, se estivesse viva estaria completando 111 anos.
Depoimento de sua filha Nídia Mesquita: “Buscando as mais gratas lembranças da minha infância e adolescência em Macaíba, reencontro nas imagens que o tempo não apaga a lembrança terna e amorosa de minha mãe Nair de Andrade Mesquita, calma, serena, não dizia mas creio que era leitora romântica dos romances de M. Delly e Elynor Glyn onde os amores de reis, rainhas, duques e duquesas eram o tema central. Amante das flores, jasmineiros, roseiras, dálias, sorrisos de Maria eram cultivadas com muito zelo e carinho no espaçoso jardim da velha casa dos meus avôs paternos onde morávamos.Nair, filha de Sophia Arlinda Curcio de Andrade e Dario Jordão de Andrade, era neto de Paolo Luigi Curcio, italiano que aportou em Macaíba, casado com Mariazinha Ribeiro Dantas, com quem teve doze filhos, uma delas Sophia, mãe de Nair e minha avó querida.Nair era alta, bonita, calma e serena. De porte elegante, muito simples, adorava perfumes e tinha os traços das matriarcas do país de origem do seu avô materno. Minha mãe nasceu em Macaíba, viveu 103 anos, foram anos de gestos, atos e ações que muito nos orgulha pela bondade, retidão de caráter, a calma nos momentos difíceis, o amor terno de esposa e mãe que nunca nos faltou.Hoje relembrando sua trajetória de vida, sinto que viver é testemunhar três vezes no silêncio, na flama e na imobilidade. Fez o melhor de que foi capaz e continuou fazendo assim até o fim.Já funcionária dos Correios em Macaíba, ela conheceu meu pai Alfredo Mesquita Filho. Foi amor para a vida toda. A família do meu pai não aprovava o namoro e por treze anos, trocaram cartõezinhos com declarações de amor, alguns dos quais, ainda guardo com carinho. Foi um sentimento verdadeiro que venceu o tempo. Para alcançar as grandes coisas, devemos tanto atuar, como sonhar, tanto planejar, como crer.Assim eles fizeram.Casaram alguns anos após o falecimento do meu avô paterno. Eu admirava a conduta dos dois, meu pai nunca interferiu no trabalho que ela exercia como tesoureira dos Correios. Naquele tempo devia ser inconcebível no nordeste do Brasil uma mulher funcionária pública. Ela era espírita Kardecista, ele católico. Toda quarta-feira ela ia às reuniões espíritas na casa do primo Olimpio Jorge Maciel e Ellem Maciel. Ele frequentava a igreja de Nossa Senhora da Conceição de quem era devoto. Selecionavam as prioridades do dia a dia em perfeita compreensão e harmonia apesar de temperamentos diferentes. Foi sempre atuante e presente em todos os momentos da vida pública que meu pai exerceu, era a apaziguadora nos momentos tensos, nas discórdias naturais na política partidária. Foi deputada estadual pelo Partido Social Democrático função que exerceu com zelo e dignidade. Viviam sempre com o que recebiam, mas, sempre marcaram a vida com tudo aquilo que deram. Depois que meu pai se foi aos 67 anos, ela usava sempre no pescoço um cordão de ouro com a foto do meu pai cravada num medalhão e sempre beijava o medalhão e dizia: “Amei e fui amada”. E eu dizia “por isso viveu tanto”. Faleceu com 103 anos de idade. Quando fui levá-la ao hospital, na maca ela segurou minha mão e disse: “Minha filha, eu não vou morrer não, não é?”. Respondi: “Claro que não mamãe”. Faleceu no dia 08 de abril de 2004. Nasceu no dia 30 de maio de 1901. Meu pai nasceu no dia 23 de maio de 1901. Faleceu no dia 12 de abril de 1969. Coincidência? “Há mais coisas entre o céu e a terra, Horácio, do que sonha a sua vã filosofia”. (Shakespeare – Hamlet.).
*****
LEMBRANÇA QUE O TEMPO NÃO DESFEZ: Valério Mesquita: “Não há melhor maneira de visualizar a eternidade que de uma janelinha aberta sobre a imensidão dos campos. Mas, pra mim bastaria o simples repouso contemplativo sobre o jardim ou as árvores do quintal de nossa antiga casa em Macaíba. Elas têm a força do resgate das estações. Quantos fatos idos e vividos não presenciaram? Quantos olhares perdidos no tempo não posso recolher do velho jardim, impregnados nas folhas, nas rosas, nas pétalas dos “dedais de ouro” ou no jasmim debruçado há mais de cinquenta anos sobre o muro da calçada, cansado de dá boa noite? A estátua da Deusa Minerva, de louça portuguesa, chantada no centro do jardim e chegada com a casa há mais de cem anos passados, ainda guarda ciumenta e sobranceira a beleza e o perfume das rosas. A maior e a mais antiga das rosas não está mais no jardim. Ela o fez. Dona Nair, do alto da sua longevidade, não o cultivando mais, associou-o a sua vida através do doce mistério da contemplação das manhãs de ressurreição. Câmara Cascudo imerso nas brumas dos oitenta anos dizia que “era uma saudade em vida agarrada ao sonho de continuar a viver”. Não há força mais dramática na passagem do ser humano pela vida do que a do senso trágico da sua própria brevidade. Partilhou com a minha mãe todas as emoções de sua velhice. Os seus repentes, as suas fragilidades e, acima de tudo, o patrimônio não descartável de suas lembranças. “Meu filho, a velhice é um fracasso”, queixava-se sob o peso de suas deficiências. Ao me ver cercado de amigos, conversando política, arriscava um prognóstico incontestável: “O Partido Social Democrático (PSD) nunca perdeu uma eleição. Eu e Mesquita demos aqui em Macaíba brilhantes vitórias. E como está esse ano?”. Era a heroína política anônima, ainda crédula na grandeza do último milagre do velho PSD de 1947, revivendo e reinventando as emoções limpas e as ilusões que um dia viajaram com ela.
A vida nunca é longa demais. Dou-me conta de que os mortos vivem mais em nós do que os vivos. É essa a impressão que me ficou. No dia passado quando revisitei a casa que fora dos meus pais em Macaíba, o jardim pareceu-me rejuvenescido. As roseiras infundiam um viço turbador como se quisessem me convencer que a sua antiga pastora estava ali. O velho “dedal de ouro” explodia o seu amarelo vivo. As “espirradeiras” floriam festivamente acompanhadas das “onze horas”, do “boa noite”. O jasmineiro, ao portão, recordava as idas e as vindas de dona Nair e se ofereciam em buquê como dantes. O jardim, afinal, permanecia o mesmo numa suave e terna liturgia de saudade.
Dentro da casa, os objetos inanimados confundiam-me. Passavam-me a impressão desesperada de que ali ainda morava a vida, com vozes, cuidados, espanadores, vassouras. O óleo de peroba ainda não enxugara de todo. Tudo estava em seu lugar. Nada havia sido mexido. A cadeira de dona Nair, a mesa grande da copa, os sofás das conversas políticas, o alpendre – passarela dos notáveis e mendigos – tudo era ressurreição de ambiente. Os quartos, as salas, a cozinha, nada se modificara nem depois do velho Mesquita nem depois de dona Nair. Dali, fui rever a minha antiga biblioteca. Revirei livros e adicionei alguns. Detive-me nos quadros, passagens da vida, momentos felizes, tudo tão fugaz, mas sempre verdadeiro. Lágrimas furtivas regaram alguns instantes pontuais de profundidade vital.
Certa vez, fazia com a minha irmã Nídia um “levantamento” dos bens materiais deixados pelos nossos pais, após longa atividade política. Não tivemos nenhum trabalho. Todo espólio se resumiu na velha residência da Rua Francisco da Cruz nº 39, centro, herdado do nosso avô. Tal declaração, em vez de nos envergonhar, muito nos orgulha. Chegamos à conclusão cômica, mas cômoda, para não dizer trágica: a família Mesquita em Macaíba não detém nenhuma referência de bens imobiliários. Restou apenas, como imóvel, o túmulo no cemitério. Mas, a nós, filhos de Alfredo Mesquita Filho e Nair de Andrade Mesquita, basta-nos o legado de honradez, de amor telúrico e de honestidade com que abraçaram a vida pública.
Acompanhado dos meus filhos Isabelle e Rodolfo, para a visita protocolar do dia de finados, retornei ao fio da meada das minhas relembranças. Os dois não chegaram a conhecer o avô. Apenas, a avó. Após caminharem comigo pelos compartimentos da casa, fomos fazer a visita ao túmulo. Procuro transmitir aos filhos a memória dos antepassados. Sim, os nossos mortos não são estrangeiros. Não se extinguem pela ausência física. Eles vivem em nós porque o passado não morre como querem alguns. Saí de Macaíba em paz comigo mesmo. Contemplei os filhos e refleti que eles são frutos do tempo. Afinal, o tempo é obra de Deus.”
*****
RELEMBRANDO A MINHA AVÓ - Marilia Mesquita : “Lembro-me das minhas visitas à minha avó Nair Mesquita quando ia semanalmente para a Fazenda Arvorêdo. O jardim de sua casa antiga é um elo do passado ao presente, ampliando a bondade e a simplicidade de sua alma. Eu colhia flores de jasmim tão perfumadas e as colocava no seu vestido, ao brilho do sol que vinha do jardim aos terraços. Ela me contava estórias de amor e saudades: “Amei e fui amada” dizia com um sorriso de menina, tendo ao redor do pescoço o medalhão de ouro que ela segurava com a foto do único e eterno homem de sua vida: Alfredo Mesquita. Eu tinha apenas 6 anos quando perdi o meu avô, sua lembrança se perde na minha mente, levada pelas brumas do tempo. Mas, para falar de minha avó, é necessário lembrar do meu avô. As lembranças do meu avô são transmitidas por ela, tão conscientes e cheias de emoções, que me fazem voltar a esse tempo passado e reencontrar o meu avô em um momento devolvido. Sua presença me dá a ilusão de que tudo pode voltar. A felicidade consiste em ter algo a fazer, alguém para amar e esperar alguma coisa. Estas memórias de amor e respeito são momentos que ficam para a eternidade. A sua vida longa é a prova de que o eterno amor existe e se edifica com o tempo. Antigamente, a união eterna e a fidelidade eram fáceis. “Não há mal que sempre dure e não há bem que não se acabe”, ressalta a minha avó com as mãos gesticulando. As lições de amor e vida de minha avó estão guardadas para sempre e repletas de ternura. Ela sabia o que era certo. Uma mulher de fé em Deus, e conservadora até pela descendência por parte de seu avô Paolo Curcio que era italiano, tendo a virtude de um temperamento íntegro e de convicções. “O mundo em que as pessoas se separam por classes já deu muita desgraça, maior porém é o desse em que a sociedade separa-se por idades.” Disse Carlos Lacerda.
Ela foi capaz de corrigir certos estragos que a vida fez sempre sem competir. O sentir do amor perdido e outras ausências. Onde se pode encontrar e ter abrigo, poupar tempo e sofrimento, é precisamente na convivência dos que já amaram, já sofreram, já conheceram. Não é isto a vida? Todos buscam a experiência de ter vivido…
São os que dão alegria sem levar tristeza aos outros, inadmissíveis, os que violam as regras da convivência. A alegria do amor permanente, hoje ela depende da lembrança de uma época em que o tempo podia ser jogado fora com a passagem silente das horas, o som das suaves noites de chuva, o canto lírico dos pássaros e das cigarras, o avanço do sol no chão da varanda, o balanço morno da rede, o cheiro das mangas e do café na mesa… tudo pode ter havido e ter sido vivido no tempo dos meus avós. “Quando olhares tua imagem evoca tua sombra de criança. Quem sabe do passado, sabe do futuro” (Ramón Del Valle). Se eu pudesse voltar a esse tempo, somente por um minuto, para sentir as emoções e alegrias de meus avós e resgatar estas memórias ricas e dispersas, longe deste mundo atual, onde o senso, a sensibilidade e a inocência fazem parte do passado. Esse tempo passado que faz parte dele a coleção de sonhos de Nair Mesquita. Ela se manteve forte durante um século. Nestas comemorações os dois elos: presente e passado se encontram em um só momento para celebrar o que realmente é a vida: O eterno amor. Obrigada vovó Nair pelas suas lições de vida, amor e bondade. Que Deus a proteja sempre.”
*****
EXEMPLO DE CANDURA E PAZ - Odiléia Mércia da Costa: “Diante de mim, o calendário de Maio. Mês de Maria, das mães, das flores, das noivas… e, significativamente, do aniversário da minha querida sogra. Imperceptíveis, as emoções fluem… e pintam com as lembranças do passado, o "portrait" de Dona Nair de Andrade Mesquita. A mãe extremada; a esposa terna e compreensiva; a amiga fraterna e leal; a comadre irmã; a política solidária e humana; a dona de casa prendada; a sogra maternal e conselheira; a avó amorosa e cuidadosa da minha filha Isabelle. Conduzia na sua, a vida de todos. Ah… Dona Nair… com seus perfumes e talcos; chás de erva doce e remédios em rotina noturna; soltando no riso a alegria de ouvir elogios sobre o filho Valério. Repetindo frases de efeito moral, para estimular o doente; repreender o adversário desrespeitoso. Na beleza do seu porte altivo, elegância no vestir e nos gestos, irradiava, como as dálias, jasmins e la frances do seu jardim, a soberania de uma mulher de paz… em paz. Partilhando da sua vida por 25 anos (desde os meus 17), aprendi lições de amor, coragem, espiritualidade, abnegação, perdão e gratidão. Dividimos a responsabilidade e cuidados para criar e educar Isabelle. Choramos a dor por igual, na perda dos meus quatro filhos. Enfrentamos juntas as adversidades da política. Encaramos com conformação os descaminhos traçados pelo destino. Na grande sala alpendrada, preferida para o repouso da tarde e a conversa dos visitantes da noite, criava tonalidades perfeitas de cores para o tempo. Não o do relógio ou dos anos… Mas, o tempo sublimado da própria história. Comungando das bênçãos e alegrias pelos cem anos de vida de Dona Nair, constato também, que no meu coração ficou pintado o seu mais fiel retrato: A BONDADE”.
*****
DONA NAIR MESQUITA, MEU DEPOIMENTO - Anderson Tavares -“Viúva do líder político Alfredo Mesquita Filho, ex-prefeito, ex-deputado estadual, dona Nair foi funcionária dos Correios e ex-deputada estadual. Filha de Dario Jordão de Andrade e Sofia Curcio de Andrade, sendo a segunda mais velha de uma família de seis irmãos cujo sobrevivente com ela foi o juiz de Direito doutor Dario Jordão de Andrade que faleceu perto dos cem anos, em Natal.
Do casamento com Alfredo Mesquita em 1933, nasceram dois filhos: Nídia Mesquita, agropecuarista, residente em Natal e Valério Alfredo Mesquita, ex-prefeito de Macaíba, deputado estadual quatro vezes e, atualmente, Conselheiro presidente do Tribunal de Contas do Rio Grande do Norte. Teve seis netos e três bisnetos. A sua religião era espírita mas converteu-se ao catolicismo graças ao padre Júlio César, então vigário de Macaíba. Toda a sua vida foi dedicada a auxiliar o seu esposo na vida política, assistindo a população carente da cidade. Distinguiu-se na vida política como uma pessoa pacificadora, conciliando muitas lutas partidárias quando havia exarcerbamento de ânimos. Por isso nunca cultivou inimizades pessoais quando atravessou batalhas políticas ao longo de quarenta anos de atividade partidária. Seu único partido foi o PSD, o qual ainda sempre brinda à mesa e responde: “marca registrada”. A última vez que votou foi com o seu filho para deputado estadual em 1998, aos noventa e oito anos, portanto. A vista tênue e o corpo frágil, não permitiam mais que se locomovesse.
Faleceu em Natal no dia 08 de abril, de 2004, assistida pelos seus filhos e netos. O seu sepultamento em Macaíba, no túmulo do seu esposo, foi um dos mais concorridos da nossa cidade.”
www.jornaldehoje.com.br
Ícone Fashion